Por menos marketing e mais conteúdo na escrita

Faz tempo que não escrevo no blog. Não é por falta de vontade, talvez um pouco de falta de tempo. A verdade é que milhares de coisas aconteceram nesses últimos meses e eu ainda não sei como ou mesmo se devo compartilhar. Compartilho um pouco ou uma parte? Espero as ideias assentarem na cabeça ou salto para a página a fim de que as ideias se ajustem à medida que vou escrevendo?

Mas o motivo pelo qual não compartilho ainda minhas novidades literárias é que li recentemente um conselho mais ou menos assim:

“Não conte a ninguém sobre seus projetos nascentes. Segure essa energia em seu corpo. Não a dissemine, não deixe aquela fagulha característica dos começos se esvair ainda. Use essa força inicial, o primeiro calor da explosão para levar adiante o projeto.”

Você sente o poder disso? Entende de que fagulha inicial ele fala?

Vai contra as leis do Marketing, eu sei, mas o marketing às vezes está errado quando se trata de produtos que mexem com a alma.

Foi pensando nisso que decidi escrever brevemente sobre uma escrita mais reflexiva e demorada.

Na semana passada li uma resenha de um blog literário que me chamou atenção. O motivo era simples: o texto criticava educada- e construtivamente um livro de uma autora estreante nacional. A resenha mexeu comigo (senti pena da autora, claro) mas fiquei agradavelmente surpresa. O motivo é que parei um tempo atrás de ler resenhas de alguns blogs porque eles elogiavam escritas medianas, e davam notas altas à livros que faziam fronteira com o ruim (levante a mão quem não foi na onda de uma resenha e comprou um livro péssimo?). Requer coragem criticar, e requer, acima de tudo, um norte ético. Não podemos destruir os sonhos de um autor estreante (na verdade, não temos o direito de destruir sonhos de nenhuma alma viva ) e a maioria das blogueiras sabe disso. Contudo, existe uma linha tênue entre elogiar e passar a mão na cabeça, eternizando assim o ruim. O que alguns blogs estavam fazendo é incentivando a escrita medíocre, e levando leitores a livros que não valiam o seu dinheiro.

“Mas Karina, peraí. O que é escrita medíocre para você?”

Vamos lá. Escrita medíocre é aquela que falha em mexer com as emoções do leitor. É a que apresenta personagens uni-facetados, que parecem copiados e colados de algum livro famoso sem agregar nada novo. É a escrita que se utiliza de recursos como sexo e violência de forma descontextualizada para prender a atenção do leitor e maquiar as faltas do texto. É aquela que não entende que uma estrutura pede um conflito, ou um inicio, um meio, um clímax e um fim.

A situação é delicada, eu sei. Em plataformas como o Wattpad, onde você brinca de ser escritor, você tem todo o direito de errar. Você está brincando, oras, treinando, se divertindo (pausa para uma historinha: uma garota me contactou inbox no Wattpad pedindo que eu lesse sua história. Ela começava assim: “Oi! Escrevi uma história. Tá meio ruim e tem um monte de erros, mas sei lá, lê e me diz o que achou!!” – Oi? Nãããão! Pensei em ignorar, mas quando vi estava lá, aconselhando-a a amar sua escrita, cuidar dela com carinho, que aquilo pode virar uma profissão, uma terapia, um chamado divino, sei lá, e que ela deve fazer o seu melhor antes de espalhar por aí uma história que ela mesmo disse estar ruim … rrsrsrs) Ok, voltando. No Wattpad temos o direito de errar, mas em plataformas onde seu dinheiro está envolvido, onde você efetua uma compra, você tem o dever de acertar. Por que o direito a ter uma história boa passa a ser de quem pagou.

A impressão que tive ao dar chance a alguns nacionais é que as autoras/os autores não gastaram seu tempo e sua reflexão montando algo substancial. Eles dispersaram aquela energia criadora em campanhas de Marketing acaloradas, mas na hora de apresentar o produto…

Tchã-rãm!

O produto era prematuro e deixou a desejar.

“Mas veja bem, isso acontece com livros de autores renomados também. Você às vezes sente que perdeu dinheiro com alguns desses livros. “

Você tem toda a razão! (A diferença é que você geralmente perde mais dinheiro nesses casos) Acontece com o iniciante em maior número, mas com o autor conhecido também. Mais um motivo para os autores, conhecidos ou não, pensarem bem em suas histórias. Qualquer um pode perder leitores.

A situação além de delicada é complicada. Escritores conhecidos estão respaldados por editoras grandes, mas sob intensa pressão. Não se enganem, essas editoras estão de olho em suas vendas. Já imaginou como deve ser ter que escrever um livro que venda tanto ou mais que o anterior?

Por isso, renomados ou iniciantes, todos precisam passar pelo que Nathalie Goldberg chamou de processo de compostagem.

Nem tudo nos serve em uma história. Nem tudo vira uma história boa. A maioria de nossas ideias não deveria passar pelo nosso crivo se não mexe com nossos sentimentos mais profundos. Se não emociona você, não emocionará ninguém, anote isso. Nossos sentidos precisam de tempo para aceitar a experiência da vida; as experiências precisam se assentar no corpo, “virar adubo”para que dali surja algo vivo e bom. Nem tudo que leio por aí é bom, mas seria bom material para a compostagem. Para amadurecimento, em outras palavras. Mas foi colocado no livro daquele jeito mesmo, cru, raso e às pressas, à revelia da reprovação no teste final da emoção. Esse é o problema do escritor que não quer perder tempo.

“Mas a gente precisa ganhar dinheiro!”

Nem me fale, eu também sinto a mesma ansiedade e falta de dindim no fim do mês. É realmente frustrante e estamos todos no mesmo barco. No entanto,  o objetivo final, o propósito da coisa toda me parece errado. O fim de tudo é lançar o livro? É ser conhecido (a)? É ganhar dinheiro o mais rápido possível?

Não pode ser esse o objetivo final, e se é, lançar um produto ruim é dar um tiro no pé. Nesse ponto o marketing está certo ao afirmar que seu cliente vai perceber que você está interessado no dinheiro dele, e vai desistir de você. Ele não é bobo, você está mexendo com algo que toca fundo na sua psique e nas cordinhas de sua emoção.

“Mas tem público para tudo”

Existe público para tudo, mas não para qualquer coisa. Pensar que “basta colocar qualquer coisa no mercado que vende” é eticamente, moralmente errado.

Existem escritores por aí se aperfeiçoando e lançando coisas boas, e os leitores terão cada vez mais acesso a eles. Ele vai entender rapidamente que prefere aquela escrita à daquele outro. O ponto aqui é, e eu repito: a escrita não é só um negócio. Antes de ser uma fonte de dinheiro (muito, muito, muito antes de ser uma fonte de dinheiro) ela é uma arte.

A escrita é um ato anímico. Ela é uma acordo entre nossa mente e nosso lado espiritual, como diz Julia Cameron no maravilhosos livro O Caminho do Artista. Nós deveríamos estar “praticando-a em um ato de fé, rumo a um objetivo criativo que brilha à distância.”

O que os leitores querem é ler algo que venha do mundo interior. Um escritor que escreva pela paixão, pelo amor à escrita e às experiências humanas, seja elas quais forem.

Por isso acho que o conselho sobre guardar a energia de um projeto para nós mesmos até que ele esteja pronto está certíssimo. Deveríamos estar menos interessados em atiçar a curiosidade de nossos leitores com trilogias que ainda não saíram do papel (já vi isso, e caí para trás!) e mais interessados em escrever algo que chegue como um sopro de mágica nas mãos dos leitores.

Mesmo tão grandiosa, tão poderosa e fenomenal, a arte reside na reflexão profunda e no detalhe. Ela requer tempo. Ela não deve sair do burburinho da mente racional, e sim de um estado de contemplação.

Menos marketing e mais conteúdo para tudo que toca nosso espírito. Essa é a regra, e há uma grande verdade nisso.

2 comentários em “Por menos marketing e mais conteúdo na escrita

  1. Oi Karina, li sua publicação sobre marketing, guardar um projeto até que ele esteja de fato pronto, ou até mesmo, sem visar o lucro com isso c gostei. Mas o wattpad é um contrassenso disso tudo, mesmo que seja só para exercitar. A impressão que tenho é de que o público no wattpad não se importa com a qualidade do que está lendo, e não estou reclamando de erros de português e gramática. Isso acaba refletindo quando o livro vai para a Amazon, basta ver a lista dos mais baixados e suas avaliações. Mas enfim, se a escrita for por prazer, para mim já é o bastante.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Eulalio! Sim, o Wattpad é um desafio, e os leitores sempre uma surpresa rsrsrs Mas eu adoro aquela bagunça, embora tenha me afastado um pouco por estar mais interessada em outras coisas. Penso da seguinte maneira: a garotada poderia estar fazendo qualquer outra coisa, mas está lendo! Isso é bom, não? Acho que ninguém permanece no mesmo lugar em relação à escrita. Os leitores e autores que estão ali eventualmente melhorarão. Leva tempo, mas é inevitável. Obrigada por comentar!

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