Espaços em branco: como o silêncio (e a arrumação) mudaram minha relação com a escrita

Um mês atrás decidi fazer uma limpeza na casa. Li o livro da Marie Kondo sobre arrumação e decidi tentar. Era feriado, não tinha nada programado e precisava arrumar a bagunça. Seguindo seu método, me livrei de quinze sacolas imensas de coisas que não me traziam qualquer prazer. Isso envolvia livros, roupas, fotos, lembranças, revistas, sapatos, todas as minha bijuterias, cacarecos, enfeites de estante, cadernos velhos, objetos sem função alguma, presentes que ganhei e nunca usei, e por aí vai. Foram sacos e sacos destinados a bazares ou à doação. Nada ficou para trás.

O que aconteceu a seguir foi inesperado. A sensação era de que a minha casa tinha aumentado de tamanho.

Não só em metros quadrados, mas em sensação de amplidão. E mais: meu armário também parecia maior, assim como os espaços vagos na minha estante. Voltei a enxergar meus livros depois de anos, como se eles agora tivessem voltado a fazer parte da paisagem que antes não atraia meu olhar. Satisfeita com aquilo mantive o pique e decidi não só arrumar a bagunça, mas intencionalmente provocar aquela sensação de ar passando pelo cômodo e de brisa correndo pela casa. Arrumei a mesa de trabalho. Tirei tudo de cima dela – as caixas com clips e tesouras, a pasta de contas a pagar,  o amontoado de canetas, os cadernos velhos, os fios que preciso lembrar a que se conectam, etc. Minha mesa voltou a ser branca. Limpa, vazia.

Fiz o mesmo no meu canto do quarto, e em seguida no ambiente virtual: limpei a tela do computador, deletei arquivos antigos,  coloquei uma proteção de tela clean, apaguei os emails da caixa de entrada. Me livrei de tudo que não precisava ou me distraia. Fui inundada a seguir por uma estranha sensação de alívio.

Nessa mesma época, por causa de uma lesão na lombar, comecei a frequentar aulas de pilates. Sempre detestei exercício físico, e estava indo para as aulas com aquele intuito maldoso e secreto – quase inconsciente – de largar assim que eu melhorasse . Só que para o bem da minha coluna – e mais tarde iria descobrir, da minha cabeça – eu gostei da coisa. O pilates para quem não conhece força você a prestar atenção ao movimento, e a respirar de uma certa maneira que no início te aborrece, mas então seda sua resistência. Comecei a gostar da sensação de ser sedada sem precisar tomar nada. A bocejar sem parar, e receber como explicação que a respiração te relaxa, e é esperado que você boceje. Eu não só passei a ir, mas arrumei um jeito de ir três vezes na semana. Pela primeira vez em meses estava conseguindo sentar por longos períodos de tempo em uma cadeira, e havia algo naquele respirar forçando a barriga – o que impossibilitava a mente de vaguear – que me fazia bem.

Foi aí que eu percebi a diferença. A mudança no ambiente, unida à atividade tranqüila estavam trazendo mudanças. Eu estava ciente dessa mudança, e na verdade precisando disso: de momentos em que eu não pensava em absolutamente nada, de lugares livres de ruídos e bagunça.

Como em toda mudança positiva, fui testemunha dos poderes da sincronicidade: nessa mesma época me deparei com um artigo sobre a importância dos espaços em branco em nossa vida.

Mas peraí: o que são espaços em branco?

O termo, advindo do design, diz que espaços em branco “trazem maior legibilidade, elegância e equilíbrio” ao ambiente. Eles propiciam um “espaço para respirar” nos cômodos onde são aplicados. Esse conceito segue a linha minimalista, um movimento que envolve menos posses, menos tranqueiras e menos coisas ao redor. O propósito é esvaziar os espaços para liberar área para o que importa. Para que a brisa corra, sabe?

Segundo esse movimento, quando removemos poluição visual de um espaço, ganhamos uma nova visão dele: o que importa é realçado. O engraçado é que aplicar aquele conceito na mente estava removendo também minha confusão mental, aquela poluição visual e sonora que nos impede de pensar a fundo no que é importante. Os momentos de silêncio e o ambiente livre de estímulos criaram em mim um espaço interno: trouxeram um certo equilíbrio, uma vontade de estar com a cabeça ali, na atividade realizada no momento, deixando no fim do dia um residual de paz. A vida com as crianças continua caótica? Continua. (Acabei de ser interrompida por uma gracinha de quatro anos que queria saber por que a gente espirra. Pausa para a explicação). O legal é que ao esvaziar a mente, sobra mais espaço para a atenção ao que realmente importa.

Mas voltando: Com o exercício físico que exigia de mim a respiração atenta, veio maior  atenção. Estar presente no momento, mente unida ao movimento virou quase um exercício divertido para mim. Sem músicas ou distrações, passei a fazer o almoço prestando atenção em fazer o almoço. Ao levar as crianças para a escola, passei a estar mentalmente presente. Esqueça o celular, o Whatsapp, o eletricista para quem você precisa telefonar antes que ele desapareça: ligo amanhã. Enquanto estou estendendo a roupa da máquina, presto atenção à roupa. A cabeça está ali, na roupa na máquina. O silêncio é completo (até por que quando a gente está fazendo coisa chata não fica ninguém do lado, acho que com medo de ser chamado para ajudar). A tarefa é feita sem confusão mental: só você e seus pensamentos, que na verdade não estão em lugar algum, eles estão ali na tarefa e acabou.

Já fazia um tempo que eu estava incomodada com o barulho do mundo. Embora eu seja sociável, sou uma introvertida de carteirinha. Ser introvertido, para a psicologia, é tirar do mundo interno o combustível para enfrentar o mundo lá fora: é no silêncio que me abasteço para me relacionar com as pessoas. E eu vinha percebendo cada dia mais que esse tanto de propaganda, música, conversas, Facebook, Twitter, Wattpad, blogs e livros estavam me deixando esgotada. Vinha acompanhando as notícias da Lava Jato de longe, irritada com a nossa política histérico-histriônica que toma todo o espaço disponível , como todo bom organismo perturbado. No papel de uma autêntica Drama-Queen, só existe ela na TV e nos noticiários. Ninguém consegue mais conversar sobre nada, há meses.

Como bom roseiral de vinhedo*, eu precisava me afastar do drama. Por respeito a mim mesma, deixei de assistir televisão, mas a internet continuava a toda (e quando falamos a toda, vocês tem uma noção).

Não sei em que momento nessa transição minha visão da escrita mudou. Parece claro que, uma vez tomado um caminho diferente, a paisagem por inteiro muda, mas daí a prever que a escrita também seria afetada é demais.

Passei a pensar diferente sobre a literatura, e que tipo de livro queria ler.

Concluí que existem livros barulhentos. Cheios de palavras estridentes, de algazarra escrita. Eu havia me desligado o mundo e passado a ouvir em alguns livros os protagonistas replicarem todo o barulho que suas mentes criadoras incorporavam em suas vidas. É estranho como sentimos que algo está sendo escrito da superfície barulhenta, e não da contemplação quieta; como a consciência se faz presente em palavras e enredos. Fechei esses livros também, e silenciei as vozes.

Foi então, meus caros, que eu ouvi.

(Calma, não sofri um surto psicótico)

Havia lido um tempo atrás que quando entramos nesse estado de silêncio, vozes vindas diretamente do nosso interior começam a se pronunciar. Se você escreve, talvez saiba do que estou falando. Não são bem vozes, mas uma expressão. Ela é diferente daquele coro barulhento que você tenta silenciar (ou atiçar) quando escreve. Essas expressões chegam de outra fonte, e carregam outro tipo de mensagem.

Nossa consciência a gente conhece bem: são as vozes dos personagens e o enredo, as da nossa insatisfação com o mercado, as tretas do Facebook, as dúvidas eternas sobre o que você está fazendo ali, sentado, enquanto o mundo gira. Você conhece esse tipo de pensamento, ele é aquele que se pronuncia primeiro (e alto), tomando 99% da sua mente consciente. Só que estou falando aqui de outra coisa, de outra natureza.

Lá está você, feliz com o seu silêncio e satisfeita pela mesa limpa. O salão ficou solitário, você silenciou a barulheira. Até mesmo consegue ouvir o eco dos passos do último tagarela a se afastar, à distância. E no meio daquele silêncio bem vindo você capta outra coisa. Não mais que um sussurro, um cutucão discreto no ombro. Eu falei voz, mas não é bem uma voz: ela raramente chegaria assim, tão clara pelo atalho da linguagem. Ela (ou ele, ou aquilo) chega como uma imagem, uma sensação; uma dica de onde continuar sua história parada, ou um sentimento que mexe com o seu estômago. Suas vísceras aprovam a mensagem, e seu cérebro, sedado pelo silêncio, não a reprime. Na verdade seu corpo parece ser o único que a entende. Pode ser que você talvez você nem note quando isso acontece, mas em um minuto você está com os dedos parados em cima do teclado, e no próximo você está tentando dar vida ao que se insinuou.

É a musa. Um tipo de transe, a tão falada inspiração.

Você finalmente acredita na existência dessa lenda do mundo da escrita. Ela está ali! O problema? Ela vai embora rápido e você não sabe como alcança-la novamente.

Foi na hora em que senti vontade de acender uma vela e queimar um incenso pra trazer a danada de volta que decidi procurar na ciência uma explicação para seu surgimento. Eis que redescubro (sim, eu já tinha ouvido falar disso mas não tinha dado a devida atenção) a teoria do flow e a prática do mindfulness. O movimento do flow é estado de fluxo que nos permite mergulhar com extremo foco em uma tarefa agradável, e ter insights melhores sobre o assunto no qual nos debruçamos. Já mindfulness é a prática da atenção plena ao momento, provocando uma sensação de bem estar mental e físico. O que eu enxerguei como mágico tinha nome: foco. O que chamei de morada da musa, é  na verdade a nossa fonte inesgotável de criatividade e imaginação: o nosso inconsciente.

Ambas as teorias são estudadas mundo afora, e bem aplicadas, por exemplo, à psicologia do esporte, que entendeu que a alta performance está ligado à concentração e bom estado mental. No estado de fluxo, por exemplo, você não pensa em comer, beber ou descansar. A sensação de tempo é distorcida.

Você deve saber do que estou falando se escreve com frequência. Sabe que a presença dessa expressão é elusiva e passageira, quieta demais para se fazer ouvir debaixo do barulho do dia. Você se lembra daquela tarde em que estava tudo quieto, e ela veio. Aquela passagem linda naquele seu texto que você escreveu, tão diferente do resto, está ali para provar.

Mas se você não sabe e quiser saber (ou quer reviver aquele estado), tente puxar o plug da tomada. Tente se desconectar do mundo virtual e das pessoas que sugam sua energia. Desligue a TV, o Ipod, o celular. Que voz você ouviria com tanto ruído? Livre-se também (nem que por um período de tempo) do que polui a sua mente. Da mesma maneira que o espaço em branco na decoração realça o que importa – como aquela peça de mobília que aparece melhor quando não está rodeada de bagunça ao redor – o mesmo acontece com as suas ideias.

Construir espaço em branco traz isso: foco. E o foco permite a chegada de boas ideias. Remova o não essencial, mantenha o que tem significado. Quando você se aquietar, seu inconsciente vai falar.

Quando ele falar, anote o que ele tem a dizer.

 

*Sobre Roseiras em vinhedos: rosas são mais sensíveis que parreiras, e costumam ser plantadas perto de vinhedos para que indiquem a presença de pragas antes que essas atinjam as uvas. 

 

Um comentário em “Espaços em branco: como o silêncio (e a arrumação) mudaram minha relação com a escrita

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