Você escreve em POV Profundo?

Você conhece o “Ponto de Vista Profundo” (ou deep POV, ou POV profundo)?

O POV profundo é uma opção relativamente nova (tornou-se popular nos últimos 20-40 anos) e consiste em detalhar certos aspectos e pontos de vista do personagem de modo a aumentar o envolvimento do leitor com a história. 

Às vezes pegamos um livro e PUTZ, a gente se envolve com os benditos personagens e não consegue mais parar de ler nem por reza brava. Achamos que é o enredo (e pode ser); achamos que é o tema legal, mas a verdade é que o modo como o escritor escreve nos faz deslizar sob a pele do personagem, e sofrer as suas dores. Quando você vê, está pulando de susto na cadeira ou chorando de amor, sofrendo como louco por e com ele.

O ponto de vista profundo leva os leitores a mergulharem de cabeça e coração na vida e nos dilemas descritos, permitindo que a história seja vista e sentida por meio das experiências dos personagens. O que esse personagem vê, o leitor vê. O que o personagem sente ou pensa, o leitor sabe.

O mais legal é que existe técnica para escrever em POV profundo.

Vamos a alguns exemplos para entender melhor?

Observe com MUITA atenção as diferenças sutis entre as frases abaixo:

Terceira pessoa

Ela estava perdida, pensou Ruth. Perdida e certa de que alguém a seguia.

Estou perdida, pensou Ruth. Perdida e certa de que alguém está me seguindo.

Releiam as frases acima, sintam sua diferença. Assim que relerem, passem para as frases abaixo, descritas em POV profundo:

Terceira pessoa POV profundo

Ela estava perdida. Perdida e certa de que alguém a seguia.

Estou perdida. Perdida e certa de que alguém está me seguindo.

Perguntas:

Se você quer que o leitor ENTRE na cabeça de Ruth, por que colocar a palavra pensou?

E se sabemos no contexto da história que ela é narrada por Ruth, ou que alguém narra a vida e pensamentos de Ruth, por que seria necessário colocar Ruth?

Notem que nas segundas opções, retirar palavras desnecessárias agiliza a frase, nos coloca dentro da cabeça da personagem e melhora o ritmo da leitura – e ritmo de leitura é tudo, pessoal, lembrem-se disso para sempre.

Mais exemplos:

Terceira Pessoa

Armando sacudiu a cabeça. Era idiota, disse a si mesmo, a forma como Pedro destratava seus sogros.

Pedro abriu a boca, fingindo dar uma longa risada.

Um idiota, Armando pensou novamente, afastando-se.

Terceira pessoa POV profunda

Armando sacudiu a cabeça. Era idiota o modo como Pedro destratava seus sogros.

O babaca abriu a boca, fingindo uma longa risada.

Idiota.

Armando se afastou.

MUITO mais dinâmico e a gente consegue se colocar na cabeça de Armando com mais facilidade, né? Sabe qual é o problema do primeiro exemplo do Armando/Pedro? Parece escrita de amador. Parece, na verdade, ESCRITO. O segredo de livros cativantes está no fato de que eles não PARECEM ESCRITOS, e sim contados a você de modo que você nem percebe que está lendo.

Vamos a exemplos em primeira pessoa:

“Minha camisa estava abotoada até a garganta, cortando o ar. O pouco ar que conseguia passar pela gola foi estancado quando ela apertou a gravata, de uma cor vinho borgonha. A reunião com a diretoria da Collin Enterprise, minha empresa, valia tal tortura?

Tirei a gravata nervosamente, enfiei-a no bolso.

Penelope me observava e franzia a testa. Eu concordei em usar as roupas, certo, só não tinha acertado com ela quanto tempo aguentaria usar. ”

Antes de  passar para o segundo parágrafo, o do POV profundo, vamos fazer uma brincadeira: Ache no parágrafo acima os sete “erros” cometidos na frase.

(Vocês entendem que ao falar erro não é exatamente um erro, né? É questão de estilo, de consenso, de técnica, etc)

Vamos lá, ache-os 🙂 Depois desça e veja se acertou:

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. (não vale ficar com preguiça! Suba lá e ache os erros!).

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Vamos lá, repetindo a frase:

“Minha camisa estava abotoada até a garganta  (1), cortando o ar. O pouco ar que conseguia passar pela gola foi estancado (2) quando ela apertou a gravata, de uma cor vinho borgonha (3). A reunião com a diretoria da Collin Enterprise valeria tal tortura?(4)

Tirei a gravata nervosamente (5), enfiei-a no bolso.

Penelope me observava e franzia a testa.(6) Eu concordei em usar as roupas, certo, só não tinha acertado com ela quanto tempo aguentaria usar. (7)

Se você achou os sete “erros” parabéns! Se não, olha onde eles estão:

Erro #1: VOZ PASSIVA. Se você quer melhorar sua escrita, evite-a. Deixe-a apenas quando estritamente necessária. O problema da voz passiva é que ela é passiva, e em leituras queremos EVITAR a passividade. Queremos energia, dinamismo.

Erro #2: idem acima.

Erro #3: No POV  profundo há algumas palavras que um personagem não usaria. Acho estranho um cara falar borgonha. Homens são menos específicos com cores. Ele poderia dizer vinho, mas improvável que dissesse borgonha. (Eu não diria borgonha 🙂

Erro #4: É altamente improvável que você se refira em pensamento ao seu irmão e pense nele como ‘meu irmão Marcelino’ (a menos que você tenha uma penca de irmãos e precise ser especifico – mas mesmo assim, em pensamentos sabemos disso, por isso fica estranho) ou se refira à firma onde você trabalha ou pretende trabalhar pelo nome completo. Fica esquisito. Para resolver esse problema, cite seu irmão ou a firma ANTES, para que, quando o pensamento vier, o leitor saiba que é sobre Marcelino que você fala, ou sobre a firma. Não tenha medo que seu leitor não vá entender. Nunca subestime a inteligência deles, ok?

Erro#5: Evite advérbios como a morte. Nesse caso, nada de “tirei nervosamente”. Coloque um verbo forte, e nunca mais precisará de advérbios para enfeitar verbos fraquinhos.

ARRANQUEI a gravata e ponto final.

Erro #6: Hmmmm… frase fraca. Duas explicações, duas expressões sem muito poder ou clichê demais. Que tal Penélope tinha duas luas no rosto? Ou Penélope abria e fechava a boca, sem saber o que dizer? 

Erro #7: Palavras demais para um pensamento, ou tipo de palavras erradas para um pensamento. Pouco impacto. Muitas palavras curtinhas (Eu, em, usar, as, só, não, com, ela)

Agora vamos ver como a mesma frase fica em POV profundo:

Terceira pessoa POV profunda

“Penélope puxou a gola e abotoou o último botão, e, claro, engasguei. O ar parou de entrar, como não engasgaria? Tossi, com raiva, e nesse momento de fraqueza ela apertou o nó da gravata.

Eu precisava me livrar daquela maldita gravata de cor pavorosa, e não interessa se alguém da firma queria me ver enforcado na reunião. Puxei-a, apertando-a mais. Valeu ser brevemente enforcado: a gravata saiu, e enfiei-a no bolso.

Dane-se que Penelope estava observando. Concordei em usar o que ela tinha escolhido, certo? Só não concordei com um limite de tempo.”

Acharam melhor? 

Mas as regrinhas não terminam por aí.

Para realmente aprofundar o POV de seus personagens…

1) …diminua (ou mesmo elimine ) verbos que indicam os sentidos: ele viu ; ele ouviu, ele sentiu um cheiro, etc. Em vez disso, descreva o que aconteceu realmente. Ele não ouviu um barulho no alto das árvores; um pássaro voou do galho; Ele não viu uma flor por entre as vigas da cerca; uma flor nascia entre as vigas da cerca; ele não ouviu o alarme estridente do carro, um alarme soou na garagem, etc.
2) …elimine verbos de pensamento, como “ele pensou em como fez aquilo”,  “ele pensou no tempo em que…” ou “ele tinha certeza que”… O conselho é: vá direto ao ponto, como se a declaração estivesse saindo de dentro da cabeça do personagem. Ex.: Ao invés de “lembrei que quando fomos à praia,” por que não colocar “talvez naquele dia distante, na praia, tivéssemos…”

3) …evite nomear emoções (Ex.: ela o olhou assustada). Em vez disso, faça o leitor sentir a emoção. (Ex.: Quando Marcos olhou para Sarah, ela tinha um tom mais pálido que as paredes ao redor”. ou “Seus olhos eram duas luas no céu”. (Ambas as descrições são reações observáveis em pessoas apavoradas. Evite entregar o livro mastigado para o leitor!)

 

E você, emprega esse tipo de ponto de vista em suas histórias? Compartilhe nos comentários!

 

Retirado, traduzido e super modificado de: http://theeditorsblog.net/2011/11/16/deep-pov-whats-so-deep-about-it/

 

2 comentários em “Você escreve em POV Profundo?

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