O que “Frozen” pode ensinar a escritores

Que Frozen é um sucesso não preciso nem dizer. Segundo o site newyorker, o filme lucrou, do lançamento em 2014 até agora, mais de USD 1,2 bilhão em todo o mundo. Ele se tornou o quinto filme de maior bilheteria de todos os tempos (!!!) e, de longe, a animação de maior bilheteria da história. Tá bom pra você?

Porque tá bom pra mim.

Um escritor, ao ler isso, olha para Jennifer Lee, Chris Buck e Shane Morris, roteiristas do megasucesso, com um suspiro engasgado: “o que vocês fizeram de tão certo? Como posso repetir a fórmula, ou ao menos morrer tentando?!”

Gente, basta olhar para o lado para ver que Frozen varreu o mundo. Let it Go piorou o estado mental já frágil das mães em uma escala ainda não desenvolvida por psicólogos.“Por uma vez na eternidade…” compromete o bom funcionamento dos neurônios, juro, e destrói nossa capacidade de pensar durante o dia! Você chega a desconfiar que é paranoia: Elsa, Anna e Olaf pipocam às vistas onde quer que você esteja. Festas infantis, musicais, papelarias, histórico do Youtube (até em canais que você jura não ter assinado!). Qual é o segredo de tanto sucesso?

Tudo começou quando resolvi passar as férias na Disney. Estava eu em uma fila quilométrica, aguardando há duas horas por uma nova atração  (adivinhe qual), vendo a excitação da minha filha de quatro anos – que se acha a Elsa mas às vezes também se acha Anna – bater no teto quando tive a ideia. Enquanto caminhava a passos lentos, ouvindo Let it Go tocar ao fundo, comecei a pensar no que levou esse filme ao Olimpo do Olimpos. Porque uma coisa eu sabia: não tinha sido o roteiro.

O que?!

(Calma, Frozen-hards, vou explicar o porquê. Aguenta mais um pouco and don´t go.)

Embora tenha amado o filme, não pude deixar de notar que ele tinha falhas gigantes. Para começar, somos inundados nos primeiros minutos por um zilhão de informações. Existe um prólogo (eu ouvi heresia?) onde o Kristoff, pequenininho, trabalha no gelo. Vemos Elsa e Anna brincando no castelo, assistimos a um acidente, ao desespero dos pais, a uma visita aos Trolls (oi?) onde eles explicam (oi?) os poderes crescentes de Elsa, e avisam que ela deve a partir de agora esconder seus poderes. Também ouvimos a explicação (novamente, oi?) do porquê Anna deve esquecer o fato. Vemos a pobre Elsa se trancar no quarto, tipo, para sempre, enquanto somos embalados pelo delicioso “Você quer brincar na neve” (aviso: a música nunca mais sairá da sua cabeça ) e não podemos esquecer que os pais das meninas morrem DURANTE-A-MÚSICA sob uma onda traumática. Não esqueçam a coroação, a confusão, o amor relâmpago entre Hans e Anna, a fuga para a montanha. Você olha no relógio e vem a surpresa: não se passaram nem 15 minutos de filme.

QUINZE- MINUTOS.

Então, sabe aquela dica sobre não sobrecarregar o leitor de informações no início da história?

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Aí vem a súbita fuga de Elsa para o meio do nada, e sua maravilhosa transformação em ‘rainha do gelo’, seguida da inexplicável jornada solitária de sua irmã também pelo meio do nada (mas o nada tem muita neve, galera, e lobos!) e já mencionei os furos de roteiro, como a falta de explicação sobre a origem e os porquês dos poderes? (Você pode até dizer que não precisa explicar, mas tente não explicar a origem dos poderes no seu livro, para ver o que acontece!)

E mais: como assim, os pais de Elsa só descobrem o poder da filha quando acontece o acidente com Anna? Ou eles já sabiam, mas não diziam nada? E como elas escondiam deles aquele monte de neve que Elsa lançava pelo castelo? (Não estou sendo implicante, só quero entender por que explicaram de onde vinha o poder do cabelo de Rapunzel em Enrolados, mas não abordaram o tema em Frozen, entendeu?)

Enfim, o intuito não é falar mal do livro, porque o filme transcende seu roteiro.

Seu furor comercial, seja nas fantasias das meninas, nos temas das festas de aniversário ou nas milhões de visualizações do youtube não podem ser só atribuído aos roteiristas. O sucesso do filme é real, meio-que-explicável, e se tem algo que eu posso aprender com esse sucesso (e aplicar nos meus livros), eu quero.

O que faz um filme fazer sucesso, afinal?

Vamos começar pelos motivos que levaram o filme a estourar. Segundo Barry Litman, economista da Michigan State que passou a carreira estudando o que determina o sucesso de um filme, um bom desempenho pode ser determinado por três fatores: conteúdo, programação/agendamento e marketing. Alguns exemplos: conteúdos de alta qualidade (como uma boa direção, histórias atemporais e um tema forte) são fatores mais importantes em um filme que ser estrelado por um artista de renome, por exemplo; que lançar um filme antes do natal é bom para seu sucesso; que marketing do boca-a-boca importa, e muito. Por fim, Litman concluiu que suas descobertas eram bem complicadas, e que não explicavam de fato muita coisa. Elas podiam explicar em grande parte o sucesso geral, mas não podiam prevê-lo, sabe?  Quanto à pergunta “o que faz um filme ter sucesso?”, ele não sabia direito.

Em 2009, Dean Simonson, psicólogo da Universidade da Califórnia, reexaminou o trabalho de Litman e descobriu um dado interessante: que a figura mais importante na determinação do sucesso final era o escritor. Qualidade do roteiro, pura e simplesmente. Só que ainda assim, até o melhor roteiro poderia ser um fracasso, enquanto roteiros falhos, como o de Frozen, viravam um sucesso. Mas como?!?

O que Frozen tem que os outros filmes da Disney não tem?

Olha, por um lado ele compartilha muitos elementos com outros filmes do estúdio, como os pais das meninas morrerem nos primeiros dez minutos, o lance das princesas, a busca pelo amor verdadeiro, os personagens secundários cômicos e até mesmo a princesa rebelde que vai atrás do que quer. Ainda assim, Frozen fez MUITO mais sucesso que os outros.

Então. Se isso não explica seu sucesso, vamos passar para outras teorias. Tem uma muito legal, de um cara chamado George Bizer. Intrigado não só pelos fatores psicológicos do enredo (sua filha foi contagiada pelo fenômeno Froziano), esse professor universitário  decidiu se aprofundar no tema e acabou descobrindo algo impressionante:

Todos, sem exceção, se identificam com a Elsa.

 

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Como assim, produção?

Bizer teve uma sacada super legal: tendo percebido o fenômeno, fez o que todo bom cientista faria: decidiu estudá-lo. Ele chamou alunos da universidade onde trabalhava – e que gostaram do filme – para uma festa temática (da Frozen, claro) e botou o povo para discutir sobre o assunto. Olha só o que ele descobriu:

1) Todos concordam: Elsa não é uma princesa típica da Disney.

  • Ela nasceu com poderes mágicos e incontroláveis
  • Ela queria fazer o bem mas causava danos (tanto pessoais quanto em maior escala)
  • Ela era falha – bem falha – e portanto, relacionável.
  • Ela era um personagem rico, multifacetado, que permitia uma vasta representação entre os grupos: para alguns, a história de Elsa era sobre repressão emocional. Para outros, sobre gênero e identidade. Outros viam Frozen como uma ode à aceitação social mais ampla, já outros achavam que o tema abordado era a depressão!

Os professores do estudo tiveram uma certeza: a diversidade dos estudantes que se juntaram à discussão era enorme (uma mistura de gêneros, de representantes da comunidade LGBT, de artistas e cientistas), e todos se viam nela. “Aqui estavam eles, todos tão diferentes, falando sobre como Frozen os representava não idealmente, mas realisticamente,” disse um professor.

2) Imprevisibilidade

  • Outro ponto forte de apelo: a história mantém o público envolvido porque subverte estereótipos. “O príncipe bonito é mau, a pessoa com os poderes mágicos é boa.”

3) Atualidade

  • Ao contrário dos filmes anteriores da Disney, Frozen passou no Teste de Bechdel (para quem não sabe, esse teste avalia se uma obra de ficção apresenta pelo menos duas mulheres conversando entre si sobre algo que não seja um homem).

O interessante é que em outro canto dos Estados Unidos, quase na mesma época, saiu outro estudo sobre as irmãs escandinavas. Este, publicado no TheWashingtonPost. vinha com o seguinte título:

“A psicologia de por que as crianças pequenas são completamente obcecadas pelo filme ‘Frozen’ – O filme capta perfeitamente o que é estar na pré-escola.”

Tenho uma criança dessa idade em casa, e vi com meus próprios olhos como o danado mexeu com ela. Estava aí a explicação que eu não procurava, mas que poderia ser de alguma utilidade para nós, pobres escritores à procura de um lugar ao sol.

Mas peraí: o que Elsa-mega-rainha-das-neves e crianças entre três e cinco anos tem em comum? E como isso pode me ajudar como escritor?

Olha, vamos por partes. Para começar, as emoções de Elsa e as das crianças dessa idade são fortes, apaixonadas e bastante incontroláveis. Elsa é totalmente impulsionada, quando finalmente se rebela, por seus desejos e impulsos.

Em segundo lugar, a imaginação dos pré-escolares não tem fim. As crianças respondem a histórias que empregam o realismo mágico de uma forma toda especial, e uma super-heroina cheia de poderes legais é um prato cheio para a garotada (Vai dizer que criar um castelo inteiro de gelo usando apenas os dedos não é o máximo?)

Em terceiro lugar, Frozen não tem realmente vilões. Não pelo menos o do tipo assustador, que faz com que Branca de Neve, por exemplo, seja aterrorizante para a minha filha de quatro anos. O vilão de Frozen é bonitão, e até canta bem!

E, em quarto lugar, Elsa tem uma ligação genuína com Anna. Apesar de se afastarem completamente depois do acidente, o vínculo entre elas é mais forte que tudo. Pré-escolares estão profundamente enraizados em suas famílias e tendem a demonstrar forte apego pelo seu grupo (que criança nessa fase não nomeia um a um seus amigos da escola?).

Por fim, o que o The Washington Post afirmou, de forma simples e veemente, é que crianças de idade pré-escolar se identificam com as lutas internas da Elsa. Imagine só, não apenas universitários de grupos heterogêneos se vêem nas lutas da heroína, mas também os pequenininhos que ainda não viram nada do mundo. Quando um personagem faz isso com um grupo tão amplo de pessoas, só pode significar uma coisa: que ele tocou em algo primitivo em nós, reminiscências de lutas ocorridas antes mesmo que entendêssemos o mundo e suas dinâmicas.

Falhas de enredo? Subitamente irrelevantes.

Calma escritores, eu não me esqueci de vocês. Voltando ao tópico do post:

“Mas Karina, se Frozen não me ajuda no enredo, no que ele pode me ajudar?”

Tema: preste atenção nele.

O tema universal de crescimento e superação – aliado à musica grudenta e ao visual deslumbrante – fez Frozen nos tocar como só as lendas antigas e os mais belos contos de fada costumam fazer. Aliado a um Marketing que disponibiliza músicas no tablete que as crianças tem acesso e vestidos cheios de frufrus (que custam OS DOIS OLHOS da cara, by the way), não imagino como Frozen poderia passar despercebido.

A lição que tirei do filme é essa: escave aquilo que nos toca lá na raiz, lá no fundo, aquilo que nos é mais caro, que é universal e eterno. O que está escondido dentro de nós é puro ouro!

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O tema então explica o fenômeno?

Inacreditavelmente, não. Tudo isso – inovação, o fato de Elsa não ser uma princesa típica, o tema universal, etc. – explica porque Frozen caiu no gosto popular, mas o resto aconteceu assim como bolas de neve acontecem: rolando pequenas morro abaixo, aumentando à medida que ganham velocidade (e mais adeptos). É o tal elemento intangível que Litman chama de “zumbido”, e Simonson de “cascatas de informação.” O famoso buzzz, o boca-a-boca que faz as pessoas abraçarem a história e quererem passá-la adiante, persuadir até as outras a vê-la. Assistir Frozen e recomendá-lo se tornou uma moeda social: “Veja, você vai adorar!” , e sugeri-lo fez  todos ficarem bem na fita com as (os) amigas (os). (Embora deixe aqui a dica: recomende sem moderação para as inimigas também.)

Falando sério: grande parte do crédito vai para a Disney, claro. O lançamento do filme foi em novembro – antes do natal – e o marketing, massivo. A Disney permitiu até mesmo que as músicas se espalhassem naturalmente – ou seja, fossem pirateadas – através das mídias sociais (ou você achou que os advogados da Disney não estavam de olho naquelas playlists do YouTube? ) Sem reprimir os milhões de tributos que pipocaram por aí, o conteúdo viralizou.

Mas e a roteirista?

Claro, temos a roteirista. Ah, Jennifer Lee, como gostaria de estar no seu lugar agora… Você deixou passar algumas falhas, mas não todas. Elsa, por exemplo, era malvada e você a mudou. Elsa e Anna não eram originalmente irmãs, e o príncipe era mais um dos heróis que tanto nos enfiam goela abaixo. Vocês, roteiristas, decidiram por um vilão não muito malvado, e acreditaram que o amor fraternal poderia impulsionar o enredo da mesma forma que a paixão romântica. Vocês conquistaram a gente, pró-feministas /mães de meninas (se Deus quiser) empoderadas. Vocês apostaram no novo e ganharam.

Alguma outra observação sobre a escrita?

Sim, sim! Os roteiristas também acertaram em cheio ao explorar subtexto, a imprevisibilidade e o simbolismo na história.

Quanto ao primeiro, subtexto, a canção de Olaf sobre como ele não vê a hora de conhecer o verão é impagável. O subtexto, inteligente, é claro até para crianças, que sabem muito bem no que Olaf se transformará no verão.

Quanto à imprevisibilidade, quem diria que o príncipe iria se mostrar malvadão? Que um personagem rústico como Kristoff poderia ganhar o coração da Anna? Que Elsa daria aquele show em cima da montanha, e por fim, que o ato de amor verdadeiro seria o entre irmãs? Nota dez para surpresinhas assim.

E, por fim, o simbolismo: o filme é cheio deles. E do tipo bom: sutil. Por exemplo, a imagem das luvas de Elsa reforçam a ideia de que ela precisa se manter afastada de contato físico; a capa de Anna ajuda a impor a ideia de realeza e conforto; os flocos de neve passam a ideia, de maneira bem sutil, que todos somos únicos em nossa complexa estrutura. Afinal não é sobre isso a história? Sobre sermos únicos e complexos? Há também o castelo de gelo, frio e distante; a montanha escalada como forma de alcançar quem somos; as escadarias que usualmente significam jornadas, a ponte que nos leva de uma realidade à outra, etc, etc, etc. Não se enganem, cada uma dessas imagens foi pensada e colocada ali para uma função. Compreendemos (e adoramos) a história em vários níveis. No musical, no nível do enredo, no nível artístico e também em um nível mais profundo, simbólico. Se é para lacrar, vamos lacrar direito, né non?

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E por falar em lacrar…

Não tem jeito, é a música do filme que sela o negócio. Deus me livre que venham mais Let it Gos por aí – juro que pego o primeiro foguete para Marte! (Mentira: tenho imagens que ficarão para sempre gravadas na memória: o Let-it-go cantado em blablablês, os dedinhos se movimentando, os pisões no chão, imitando o momento em que Elsa diz “seja a boa garota que você sempre tem que ser!”, as criações de castelos no ar, etc.). Se perguntarmos para qualquer um o que há de tão atraente nas músicas de Frozen, muitos responderão que é a mensagem que ela passa (aliada a uma sequência de feições tão reais que impressionam, vocês notaram?)

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E aí está, escritores, o momento em que percebemos o segredinho do filme: a soma de todas as partes. O capricho na confecção, a atenção aos detalhes, a escolha do tema, a música, o visual… tudo isso faz vibrar um sininho dentro de nós. No final, Frozen fala com a gente sobre a gente: sobre essa batalha sem fim entre nossa realidade e nossos desejos; sobre o fato de que nenhum de nós realmente quer um vilão assustador. Sobre a maioria de nós ser bastante leal às nossas famílias, apesar de tudo, e que todos nós, seja com o pé na terra ou no alto de uma montanha, queremos ser livres e felizes.

Espero que tenham gostado! O que vocês acrescentariam? Vamos conversar?

Beijinhos azuis e gelados!

 

 

 

 

Artigos que colaboraram e inspiraram este post:

http://www.scriptmag.com/features/storytelling-strategies-characters-frozen-expectations

http://animeyume.com/blog/2014/01/17/frozen-and-the-evolution-of-disney- storytelling

http://www.newyorker.com/science/maria-konnikova/how-frozen-took-over-the-world

https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2015/01/06/why-little-girls-are-so-completely-obsessed-with-frozen/?utm_term=.e528ef853d4e

 

 

4 comentários em “O que “Frozen” pode ensinar a escritores

  1. Ótima reflexão!
    Minha prima diz que sua filha (eu tenho apenas meninos) gosta mesmo é da Anna, a irmã de Elza, e que a Elza na verdade a assusta. Talvez as crianças se identifiquem com a Anna, e os adultos com Elza. Apenas uma ideia louca.
    A história, para mim, teve um apelo bem atual: a busca das mulheres por sua identidade, o amor entre as mulheres, a liberação feminina. Esse foi um dos pontos que amei no desenho.
    beijo!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Tia Kaka é a Bubu !!!!ESTOU DE QUEIJO CAÍDO INTERPRETAÇÃO DIVA!!!!!Vc é D+ tia!! Kkkkkkk lembro da Nina nos states fazendo o ‘Show da Frozen’ Hahahaha

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