“Filmes Mentais”: 3 dicas para deixar sua história memorável

Você já teve a impressão de estar assistindo a um filme enquanto lê um livro? De ver como tudo se desenrola, observar as cenas, os movimentos, sentir o cheiro que os personagens sentem?

Especialistas chamam essa imagem mental de “filmes mentais.” Esse “filmes” conseguem ser, de acordo com o diretor mais criativo do mundo, ainda mais excitantes e memoráveis do que um filme de Hollywood!

Quem afirma isso é ninguém mais, ninguém menos que o criador e diretor de Guerra nas Estrelas, George Lucas. Sua fundação, a edutopia.com, incentiva entre outras coisas a criatividade e inovação na educação. Se ele estiver certo ( e está) nossa mente é ainda melhor em criar filmes que ele. Nada mal, hein?

Em termos práticos, fomentar esses filmes mentais ajudam estudantes a darem sentido a conteúdos complexos e “verem” mais nitidamente os personagens, ambientes e a ação de histórias não ficcionais, aumentando com isso o prazer na leitura. Faz todo sentido, já que ambos os sistemas de nossa cognição, tanto o verbal quanto o não-verbal (visual-espacial), são estimulados durante a leitura. Com isso transformamos conceitos abstratos em concretos e os deixamos, assim, mais significativos e memoráveis. Está explicado por que amamos certos livros e nunca mais os esquecemos!

Mas como a iniciativa de George Lucas nas escolas pode nos ajudar a melhorar nossa escrita?

Para começar, entendendo os elementos que ajudam a concretizar as imagens na cabeça dos leitores e então aplicando-os aos nossos livros. Esses elementos são muitos, mas três deles são praticamente obrigatórios em textos memoráveis:

 1. Uma leitura memorável precisa ser sensorial

Leia a seguinte frase: “O carro quebrou.” Simples, direta, informativa?   Sim.

É uma frase que evoca grandes imagens no cérebro? Sem dúvidas, não.

Imagine se a frase agora faz menção à fumaça escura escapando sob o capô, as buzinas soando impacientes atrás de você, o visor do painel mostrando várias luzes vermelhas – algumas delas, inclusive, você está vendo pela primeira vez. É outra coisa, não é?

O segredo está na vida que a descrição traz à narrativa. Imagens sensoriais aprofundam a reflexão, ambientam a leitura, evocam sentimentos e despertam sensações familiares. Afinal, quem não teve palítação ao passar por uma situação de carro quebrado?

Mas não é só ambientação que a descrição traz. Além de escrever o que o seu personagem está vendo, cheirando, ouvindo e sentindo na ponta dos dedos, você também pode definir o tom da cena. O pio solitário de uma gaivota pode transformar uma praia agradável em algo melancólico. Névoa pode trazer mistério, chuva pode evocar tristeza e solidão, calor pode deixar um ambiente opressivo . Mencionar que o carro quebrou em uma estrada abandonada, à meia-noite, muda absolutamente tudo, não é mesmo?

2. Uma leitura vívida precisa ser fluida

O segundo  elemento que você pode incorporar à sua escrita é a fluidez. Mas atenção ao que significa fluido. Fluido não é fácil; fluidez é, na verdade, algo bem difícil.

Nada quebra de maneira tão drástica meus filmes mentais que uma palavra rebuscada ou imprecisa no meio da frase. Isso não significa que não leio prosa rebuscada, mas um bom leitor sabe quando a escrita cumpre a função de construir um mundo, transmitir informações sobre ele ou criar um tom específico (quem já leu ficção científica sabe bem que explicações complexas fazem parte do contexto e, embora intrincadas, não atrapalham a leitura; pelo contrário, dão veracidade a ela). Mas existem prosas rebuscadas que não servem a propósito algum que não seja mostrar ao leitor como o autor é inteligente. Por exemplo, por que usar elocubrar ao invés de pensar? O que deveria deslizar na frente dos olhos passa por um quebra- molas  e… bam! – fluidez interrompida. É esse tipo de interferência que causa ruptura nos filmes mentais.

Mas Karina, e quanto aos livros naturalmente densos e reflexivos? Vários clássicos trazem um vocabulário rico, e isso é o que os fez tão bons…

É verdade. Por exemplo, há meses estou enrolando para terminar Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (um luxo só concedido a clássicos, né? Ninguém lutaria para ler até o fim o livro de um escritor iniciante ou desconhecido). Voltando a Huxley: a história é fascinante, inteligente, etc, mas ai meu Deus, todas aquelas palavras novas, a densidade, as reflexões profundas são demais para quem só consegue ler à noite. Pelo mesmo motivo larguei Tolstoy, e esse larguei sem peso na consciência.

Ambos os autores são conhecidos pela prosa elaborada, e em ambos eu tive dificuldade em mergulhar na leitura. Estou conseguindo terminar Admirável Mundo Novo, mas notei que o autor faz algo que muitos outros não fazem: ele equilibra suas reflexões densas com frases simples. E ele também alterna no tamanho de frases: ele traz frases com 20 palavras ao lado de frases menores, evitando assim que a leitura emperre. Está aí um bom truque se você quer ser denso em seus livros: intercalar frases diferentes para que a densidade não interrompa o fluxo imaginativo do leitor.

3. Uma leitura memorável dá espaço para a criatividade trabalhar

Na escrita, o ditado “quanto mais, melhor” nem sempre se aplica. Alguém apoiaria a ideia de que quanto mais advérbios e adjetivos numa frase, melhor? Ou quanto mais detalhes sobre um ambiente, melhor?

Esse é um erro comum quando estamos iniciando na escrita: queremos que os leitores imaginem a cena exatamente como nós a imaginamos, por isso descrevemos cada sorriso, suspiro e olhar até que a cena se torne um tédio.

É certo que fornecer detalhes demais é a melhor maneira de fazer seu leitor bocejar (além de estourar a contagem de palavras), mas o principal motivo pelo qual não devemos exagerar na descrição é que esse excesso tolhe a leitura. Ela rouba do leitor a chance de usar sua imaginação.

O leitor precisa ser convidado a entrar no seu mundo, mas precisa preencher certas lacunas com o que o encanta. Você, escritor, sabe o que encanta leitores em geral, mas não o que encanta um leitor em particular. Às vezes ele quer imaginar o quarto de um jeito, e até dar aos protagonistas o rosto que desejar. Conheço escritores que não dão detalhes demais sobre a fisionomia dos personagens para que os leitores o imaginem como quiserem. É uma boa técnica, mas requer um imenso desapego sobre o que você produz.

A dica aqui é: descubra quanta descrição te deixa confortável, largue mão do controle total sobre a cena e aceite que às vezes menos informação = mais imaginação.

E vocês? Como avaliariam suas próprias histórias? Vocês são do tipo controladores ou desapegados? E como vocês, no papel de leitores, imaginam as histórias em suas mentes?

Isso rende um bom papo! Até a próxima!

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