A Jornada do Herói: O Chamado à Aventura

No Mundo Comum, o herói está em casa. Seu mundo é conhecido, e parece seguro (embora instável.) Tudo parece bem, quando de repente o herói é confrontado com um desafio. O desafio pode vir na forma de um problema, uma carta ou um evento desagradável. O fato é que com esse Chamado, ele não pode mais ficar onde está. Acabou-se o conforto (ou desconforto) do Mundo Comum.

Em Guerra nas Estrelas, Luke está limpando seu novo robô quando aperta algo e  recebe uma mensagem holográfica desesperada,  enviada por uma princesa em perigo

Em Guerra nas Estrelas, Luke está limpando seu novo robô quando aperta algo e  recebe uma mensagem holográfica desesperada,  enviada por uma princesa em perigo. Em Harry Potter, o chamado vem em forma de carta trazida por uma coruja.

 

Em algumas histórias de detetive, o Chamado à Aventura é o pedido para que o detetive aceite investigar um novo caso e solucionar um crime que perturbou a ordem das coisas. Um bom detetive deve corrigir o erro, além de resolver um crime.

Em enredos de vingança, o Chamado à Aventura pode ser um mal que deve ser reparado. Nas comédias românticas, o primeiro encontro com alguém especial, mas irritante, que o herói ou a heroína passa a perseguir e enfrentar.

“O Chamado à Aventura estabelece o objetivo do jogo, e deixa claro qual é o objetivo do herói: conquistar o tesouro ou o amor, executar vingança ou obter justiça, realizar um sonho, enfrentar um desafio ou mudar uma vida.” (Cristopher Vogler, A Jornada do Escritor)

O que está em jogo aqui pode ser expresso por uma pergunta que, de certa forma, é feita pelo próprio chamado:

Será que nosso herói conseguirá voltar para casa? 

Salvar a princesa e derrotar o mal?

Recuperar o objeto perdido?

O Chamado à Aventura tem outros nomes, e um dele nós já vimos antes: ele pode ser chamado de evento Incitante (como vimos na estrutura dos três atos), incitamento, acidente iniciatório, catalisador, gatilho. Todos esses termos referem-se ao evento que dá a partida na história, uma vez que o personagem principal foi propriamente apresentado aos leitores.

O Chamado à Aventura pode vir sob a forma física de uma mensagem, como uma carta , uma declaração de guerra, a entrega de uma intimação ou uma ordem de prisão. Mas o Chamado também pode ser algo que se agita dentro do herói, “um mensageiro do inconsciente, que traz a notícia de que chegou a hora de mudar.” Ele pode ter um sonho, uma fantasia ou uma visão. Talvez o herói se sinta farto das coisas do jeito que elas estão, e um estopim muda o mundo do personagem. No maravilhoso livro A improvável jornada de Harold Fry, o chamado à aventura é uma saída rápida de casa para por uma carta no correios. Só isso.

Imagem: https://alegriadeseroquee

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“Num sentido mais profundo, é uma necessidade humana universal que o empurra, mas é preciso aquele último dia de vida infeliz que faz com que alguém decida dar o salto para o desconhecido.” (Vogler)

O Chamado à Aventura também pode agir sobre o herói como uma tentação. “Pode ser o brilho do ouro, o boato sobre um tesouro, o canto de sereia da ambição.” Ou ele pode chegar através da manifestação do arquétipo do Arauto (que pode ser do bem, como um mentor, ou do mal, como o vilão) mas que serve para desencadear o movimento da história. Alguém aí se lembra do Mestre dos Magos? Para mim ele é um arauto perfeito 🙂

 Alguém aí se lembra do Mestre dos Magos? Para mim ele é um arauto perfeito :)

O herói pode não entender se está sendo ajudado por um aliado ou inimigo, o mesmo recebendo uma oferta ambígua. Fará parte da história interpretar essas intenções e se livrar/lidar com o que elas implicam.

O herói pode ser alguém em negação a respeito de algum problema, relutando em se unir à “aventura” por não achar que há algo de errado com seu Mundo Comum, graças a um arsenal de muletas, vícios e mecanismos de defesa. A função do Arauto, nesse caso, é chacoalhar o seu mundo.

O Chamado também pode chegar sob a forma de uma perda ou morte de conhecidos do herói; um rapto de alguém amado, ou a perda de algo precioso (como a saúde, a segurança ou o amor.)

Em algumas histórias, o Chamado pode ser simplesmente a total falta de opções. Os mecanismos de defesa deixam de funcionar, outras pessoas se enchem dele, ou ele é encurralado de tal modo que só lhe resta mergulhar na aventura, como em Jogos Vorazes, quando Katniss é forçada a se voluntariar para um evento de onde tem certeza que não sairá viva.

Segundo Vogler, heróis relutantes têm que ser chamados muitas vezes, pois tentam evitar essa responsabilidade

Segundo Vogler, heróis relutantes têm que ser chamados muitas vezes, pois tentam evitar essa responsabilidade. Os heróis mais dispostos logo respondem a chamados internos e nem precisam de pressões externas. Eles mesmos se selecionaram para a aventura. Mas este tipo é raro, e “a maior parte dos heróis tem que ser aliciada, espicaçada, empurrada, tentada ou arrastada para a aventura. Muitos deles entram em brigas e nos divertem com suas tentativas de escapar. Essas brigas são o trabalho do herói relutante, ou, como afirmou Campbell, exemplificam a Recusa do Chamado.” (<– Esse será nosso próximo tópico! )

Um beijo e espero que tenham gostado!

Retirado de: A Jornada do Escritor, Cristopher Vogler

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