Quem é você, escritor?

Essa parece ser uma pergunta fácil de responder, mas não é. Não sei quanto a vocês, mas sei apontar melhor que tipo de escritora eu não sou, do que aquele que sou ou quero ser.

Semana passada olhei para a minha mesa (praticamente um cenário New-Orleaniano pós-Katrina) e resolvi avaliar melhor os projetos que eu estava tocando (um eufemismo para jogar tudo sem qualquer graciosidade no lixo). Alguns deles poderiam trazer retorno financeiro ou até mesmo vingar mais tarde, mas no momento eles estavam me esgotando. Eram projetos legais, mas me tomavam um tempo absurdo. Estavam, principalmente, sendo levados adiante sem alma.

Alma?

Calma, sou zen mas não demais.

O lance é: você já parou para pensar nisso? Na alma do seu trabalho? (Substitua alma por coração, essência, cerne, whatever). Eu decidi cancelar a penca de projetos que estava tocando porque não estava mais escrevendo no estado de fluxo de onde usualmente vinham minhas melhores palavras. Eu estava escrevendo no escuro, sem saber onde estava indo. Sem saber onde iria chegar.

Ser escritor nem de longe significa só escrever, vocês sabem. Precisamos estar na mídia, montar base de leitores, realizar ações de Marketing, entender o nosso nicho, formar a nossa tribo. Isso requer tempo e esforço, e muitas vezes a quantidade desses dois é inversamente proporcional à quantidade de alma envolvida na tarefa. Ou seja: quanto mais amor você tem por uma ideia, menos pesada e demorada ela deveria parecer a você.

O marketing não é o problema – gosto de marketing – e me conectar com os leitores é um prazer. O problema é que eu não estava sendo eu. Não quero copiar um modelo de blog nem postar fotos minhas em redes sociais fazendo coisas que não tem a minha cara. Não quero escrever sobre o que acho que pode dar certo; quero escrever sobre o que me encanta. Ao mesmo tempo, se firmar no mercado da escrita está associado a essas coisas. Quando é que algo assim dá certo? Por que uma coisa eu digo a você: não estava dando comigo.

Autenticidade e pessoalidade

Quem estuda marketing literário sabe que essas duas palavras – autenticidade e pessoalidade –  são tudo para um escritor antenado em vendas. Elas definem tudo. Você não vai longe fingindo ser o que não é, nem sendo pouco genuíno. Você precisa ser você. Introvertido, engraçado ou verborrágico? Mandão, avoado ou taciturno? O ponto é que há espaço para tudo nesse mundo, e certamente há espaço para você. Tenho certeza que milhões se identificariam com o que você tem a dizer. Mas para chegar lá, você precisa saber responder:

  1. Quem é você?
  2. Qual é a alma do seu trabalho?

A resposta para essas duas perguntas envolve ouvir. Envolve reflexão, tempo, saber o que te move e o que te puxa para trás. O que encanta e emociona você.

Foi pensando nisso (no fato de que outros escritores passavam pelo mesmo tipo de crise existencial ) que decidi escrever esse post. Como podemos nos conhecer melhor? Como chegar à resposta para a mais simples e complexa das perguntas: quem sou eu como escritor?

1) Conhece a ti mesmo

O aforismo “conhece a ti mesmo” é tão antigo quanto o mundo e teve uma variedade de significados atribuídos a ele na literatura. O principal é que ele fala de autosuperação e serve para nos ajudar a responder as perguntas acima.

A pergunta “quem sou eu como escritor(a)” na verdade é ainda mais complexa: ela se transforma em quem sou eu? 

Fui de Platão ao Whatsapp em dois segundos. Quando percebi que a pergunta era existencial, peguei o celular e mandei um zap pras amigas: Povo, definam-me por favor em três palavras. (Dica: nunca dá certo da primeira vez com os amigos, a maioria vai tentar te descrever em emojis. Com paciência e explicação correta, sai). Pedi para que elas dissessem, sem pensar demais, como me viam. As palavras que vieram foram inusitadas e inesperadas:

“Metódica”, “focada”, “nerd”, “multicultural”

Vieram outras também, mas essas eram as que cabiam na minha definição profissional. Fiquei imensamente surpresa que elas me vissem assim, e não neuróticasurtada ou mandona.:) Nada mau, eu achei.

Pensando a respeito dessas respostas, eu me vi com maior nitidez. Percebi inclusive que meus personagens têm muito dessas qualidades: eles estão sempre metidos em escolas, na universidade, batalhando no emprego. Todos, sem exceção, são focados (ou seja, neuróticos).

“Conhecer-se através dos olhos dos outros é entender do que voce é feito(a). Essa compreensão ajuda a formular melhor suas diretrizes e a trajetória do seu trabalho, caminhos que serão trilhados com muito menos esforço e bem mais prazer se entendidos.”

Nem de longe o olhar do outro encerra a explicação ao seu respeito, claro, mas ele ajuda a nos dar um contorno. Somos invisíveis a nós mesmos; somos aquele ponto cego no retrovisor. Um complexo arcabouço de boas e más experiências, um recorte do nosso tempo, uma fatia de estatística social, um fruto da nossa educação. Somos um arsenal de genes prontos a trabalhar a nosso favor ou contra, e somos moldados por eventos que acontecem conosco, mas também com os outros. O fato é que tudo isso se junta e afunila na ponta dos dedos quando escrevemos nossa história.

Não foi à toa que disseram que sou metódica. Tiro um prazer imenso em planejar tudo, principalmente minhas histórias. Adoro técnicas, leio sobre o assunto, e já arriscava uns textos sobre isso. Ao mesmo tempo adoro minha formação em psicologia, e acho que escrita é um estado de espírito, é terapêutico, e é uma ferramenta poderosa – e pouquíssimo utilizada na formação de escritores.

Eu estava chegando perto de quem eu era. Uma escritora preocupada com a psicologia da motivação? Uma psicóloga que adorava estrutura de histórias? Surgiu então a ideia desse blog, e vi que minha alma estava aqui.

2) O que você quer ser quando crescer?

Ou seja, qual é a sua meta? Não sei quanto a vocês, mas para mim, trabalhar sem meta é como ficar dando voltas sem saber onde aportar, ou que porta abrir. Queria muito ter feito essa pergunta antes, aos quinze, mas não tive a maturidade (Agora que cresci, preciso perguntar “O que você quer ser quando envelhecer?” )

Minha meta é melhorar. Não é escrever mais (é também), mas quero dar aquele salto na qualidade, sabe? Eu adoro literatura, livros com palavras rebuscadas, clássicos. Mas escrevo sobre isso? Não (quem dera). Eu escrevo sobre romances, ecologia, empoderamento de mulheres. Eu praticamente comecei agora a escrever. Descobri pensando nisso que embora eu não escreva como gostaria, essa vontade virou um tipo de lugar onde chegar. Quero escrever bem. Quero profundidade. Para chegar lá, preciso ler. Ler o que quero escrever, sem dúvidas. Defina seu lugar de chegada e faça as malas! A viagem é longa mas promete ser uma p*** viagem.

3) Por que você escreve?

Quando sabemos os porquês, o processo inteiro é percorrido às claras. O que você quer ser? Uma escritora de mistério? A nova Veronica Roth? Uma escritora competente de livros eróticos? Um nome conhecido no mercado de livros de fantasia? Ganhar dinheiro?

Além disso, questione-se:  Quais são as razões para você escrever? Qual é o objetivo do livro que você está escrevendo no momento? Se precisar, escreva essas respostas em um papel e pendure no seu escritório. Tatue na pele. Fale em voz alta.

4) Não se autodeprecie (nem acredite em todo elogio)

Nessa jornada de autoconhecimento, é importante que saibamos o papel de nossas palavras e da palavra do outro sobre a nossa psique. Introjetamos tudo que ouvimos, inclusive o que ouvimos de nós mesmo. Se você escreve algo pensando: que bosta, sinto informar, mas aquilo certamente deve estar ruim. Se você costuma choramingar por aí que “tudo que você faz fica ruim,” ou que “está tudo uma droga”, saiba que seu cérebro está ouvindo tudinho e ajustando essas frases à sua estrutura. Ele vai sacar essa frase nos momentos em que você mais precisar de confiança em seu trabalho. Corte os diálogos nagativos da mente. Aprenda a alcançar o meio termo entre gostar do que escreve e ser seu próprio crítico. Nunca critique-se demais, nem acredite em todo elogio 😉

Ué , Karina, por que não?

Bem, digamos que sua mãe diz que seu livro é a nova sensação do momento, ou aquele amigo Beta parceirão (que não lê nada há anos) diz que seu texto está perfeito. Será que a opinião deles não está tingida de amor demais pela sua pessoa? Outra coisa: elogio de quem escreve bem vale mais que elogio de quem escreve mal.

E  por último…um conselho.

Interaja nas mídias sociais.

Entrei em novembro no grupo NaNo Brasil (escritores que como eu toparam o desafio no NaNoWriMo, e dispuseram-se a escrever 50.000 palavras em um mês) e tive uma surpresa super positiva. Foram 30 dias de apoio, críticas construtuivas e discussões adultas e respeitosas. A opinião ao final foi geral: o apoio faz bem! Ali eu conheci gente bem melhor que eu. Gente bem mais focada e meticulosa (!!!), e gente beeeeem mais  relax que eu. Quer maneira melhor de mapear suas forças e fraquezas que comparando-se com gente que pensa e age (no sentido de estabelecer meta de escrita) como você? Eu decobri muito sobre mim observando a experiência dos outros.

Espero que essas perguntas ajudem você a se conhecer melhor como escritor! Que tal deixar ali embaixo sua opinião sobre o assunto ou como você chegou ao autoconhecimento?

Beijos e até a próxima!

 

Um comentário em “Quem é você, escritor?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s