A psicologia da escrita e 7 maneiras de fisgar o leitor

Contar histórias está programado em nossos genes. Não existe sociedade que não conte histórias, simplesmente porque não há sociedade que consiga entender o mundo sem elas.

Vai além do entretenimento, da diversão e do prazer: nossa capacidade de narrar é o que nos mantém vivos e nos faz humanos. A primeira narrativa (que, se não é essa, provavelmente não se distancia muito em tempo dela) foi contada por homens macacos e seu encontro com nossa mais poderosa antagonista: a morte. Escavações arqueológicas mostram o que talvez tenha sido nossa primeira tentativa de contar algo: um funeral. Flores e artefatos que enfeitam o tumulto de alguém querido contam uma história. Sobre nossa finitude, saudade e futuro, temas de uma narrativa bem mais antiga que pinturas em paredes ou papiros ressecados. Perdas, alegrias, ameaças, desejos, sonhos, aspirações — contar histórias foi o que nos permitiu vislumbrar o futuro e nos preparar para o inesperado.

Vamos “adiantar a fita” alguns milênios. Há, hoje, toda uma ciência por trás da escrita. Queremos entender por que escrevemos, o que nos incita, o que desperta interesse e nos faz perder noites mergulhados em histórias alheias. O que desencadeia essa deliciosa sensação de prazer que sentimos quando somos fisgados por uma história? Será sua linguagem lírica, os grandes personagens, os diálogos ou imagens vívidas?

Não. A química do nosso cérebro indica que o nosso gatilho é a curiosidade.

Em outras palavras, o desejo de descobrir o que acontece em seguida é o que nos faz mergulhar na leitura e não conseguir soltá-la. Essa sensação vem da dopamina, nossa recompensa neural para a curiosidade, incitando-nos a continuar até que encontremos a resposta.

Esta informação é um divisor de águas para escritores, especialmente tendo em conta quantas vezes somos levados a acreditar que “ter um jeito com as palavras” é o que conecta leitores. Não é.

É a história o que cativa o cérebro.

A seguir seguem sete maneiras de aguçar o cérebro do leitor e deixá-lo ligado na sua história. Essas dicas foram tiradas no excelente site Writetodone, e adaptadas para melhor compreensão. (link para o site abaixo)

“1. Surpresa!

A surpresa nos chama a atenção e desafia nossas expectativas. Essa é a melhor maneira de ‘agarrar’ a atenção do cérebro: deixar o leitor descobrir que nem tudo é o que parece.

Desde o início?
Sim, desde a frase de abertura.

A primeira pergunta do leitor é: “Sobre o que é essa história?”, mas o que eles estão realmente perguntando é: “Qual é o problema do protagonista, o que ele precisará fazer para resolvê-lo, e quais obstáculos precisará superar para chegar lá?”

Pense no problema da história como o marco que permitirá aos leitores antecipar o que vem a seguir. Uma história sem um ponto de referência é apenas um monte de eventos aleatórios – e isso é chato, e sequer pode ser considerado uma história.

2. Sentir

A ciência tem provado ( e a psicanálise já reforça isso há pelo menos um século) que o cérebro usa emoção, ao invés de razão, para avaliar o que importa para nós e o que não funciona. São nossos sentimentos – e não alguma lógica “objetiva” – que dita cada escolha que fazemos. Portanto, não é surpreendente que quando se trata de história, se não estamos sentindo, não estamos lendo.

Em uma história convincente o leitor desliza na pele do protagonista e torna-se ele(a). Sente o que ele sente, quer o que ele quer, teme o que ele teme.
Isto significa que o protagonista deve reagir a tudo o que acontece, e, por isso, entender como ele está fazendo sentido da situação. Este é o lugar onde a história real reside – e muitas vezes reflete na diferença entre o que um personagem diz (Sim, Reginaldo, é claro que eu vou casar com você) e o que ele está realmente pensando (contanto que você prometa nunca mais me tocar) .

3. Objetivo

Todo mundo tem um objetivo – você, eu, e cada protagonista por aí. Como o cientista cognitivo Steven Pinker disse, “sem uma meta, nada faz sentido.”

É por isso que imediatamente precisamos saber quais são os objetivos do protagonista. Em outras palavras: O que ele quer? Ainda mais importante, por que ele quer aquilo? E, finalmente, o que ele vai precisar superar para chegar até lá ?

Por que isso é tão importante?

Porque tudo o que acontece na história tem como ponto inicial e final o objetivo do protagonista. A história nada mais é do que o trajeto entre onde o protagonista se encontra no inicio e a conquista do seu objetivo, no final. Se ele não sabe qual é o seu objetivo, a história anda em marcha lenta e/ou ponto morto (ou despenca ladeira abaixo).

4. Precisão

Somos bombardeados por mais de 11.000 informações diferentes por segundo, que chegam ao cérebro através dos nossos cinco sentidos. Onze mil por segundo!!!!!! Para não pifar, o cérebro peneira tudo em grande velocidade, separando o que precisamos saber do que pode ser ignorado. Assim, 99,9 % de todos os dados que entram são sumariamente descartados.

Imagine agora você escrevendo uma história. Seu leitor assume que tudo o que você disser é importante, ou não estaria ali. Se você introduzir coisas que não precisa introduzir (o famoso encher linguiça) ele vai se cansar. Seu cérebro vai jogar a toalha, principalmente se o leitor descobriu que toda aquela descrição do quarto não teria propósito nenhum, além de impor uma imagem desnecessária em sua mente (todos nós temos uma imagem perfeita de quarto, sinceramente não precisamos de muita descrição para entender isso). A habilidade mais útil que um escritor pode desenvolver é a capacidade de cortar a gordura da narrativa e manter o texto enxuto. É isso ou arriscar ser abandonado sumariamente por um cérebro sobrecarregado.

5. Específicidade

Nós não pensamos em abstrato; pensamos em imagens concretas. Se não podemos ver, não podemos sentir, e se isso acontece nada tem impacto sobre nós. Por exemplo, quando você pensa em “amor” você não vislumbra um conceito, você imagina imagens que, para você, evocam o conceito de amor. Cada um de nós provavelmente vê uma imagem muito diferente quando falamos, por exemplo, de beleza (ou não; talvez todos nós vejamos o Henry Cavill, não sei rsrsrs)

Em suma, temos somente acesso ao universal através do específico. É por isso que se diz que uma história está nos detalhes. Evite generalidades vagas. Evite, evite, evite.

Ah, dá um exemplo?

“Dudu teve um dia difícil no trabalho.”

É uma bela frase, exceto que nós não temos nenhuma ideia do que Dudu considera um dia duro, o que realmente aconteceu, ou mesmo o que seu trabalho é. Afinal, um dia duro como bombeiro é bem diferente de um dia duro como um toureiro . Seja específico. Use esse teste simples: se você fechar os olhos, você pode ver o que quer descrever? Se não, o leitor não consegue também .

6. Conflitos

Nós só não gostamos de conflitos na vida real; em qualquer outro lugar, queremos muito, muitos conflitos. Conflitos mexem conosco. Eles no fazem sentir desconfortáveis. Por que na vida real odiamos conflitos, escritores podem cair na cilada de serem bonzinhos com seu protagonista. Resista a esse impulso.

É o conflito que os leitores querem. Eles querem saber o que os custaria emocionalmente enfrentar esses riscos. Querem saber se conseguiriam se safar, se conseguiriam passar por cima de seus medos com coragem. Querem, finalmente, saber o que se encontra do outro lado do risco, o que eles ganhariam se enfrentassem seus medos.

7. Sentido

O cérebro analisa tudo em termos de causa e efeito – na verdade, nós assumimos que a causalidade é o cimento do universo. Assim, quando uma história não segue uma trajetória de causa e efeito claro, o cérebro não sabe o que fazer com aquilo. Isso pode realmente resultar em um sentimento de sofrimento físico, para não mencionar o enorme desejo de lançar o livro pela janela.

A boa notícia é que, quando se trata de manter a sua história na linha, ele resume-se ao mantra: ação-reação-decisão. Se eu fizer isso, então…. Se eu faltar mais uma vez o trabalho (ação), então eu vou ser demitido (reação), portanto, é melhor eu sair desta cama aconchegante (decisão).

Ação, reação, decisão é o que impulsiona a história para a frente. Do início ao fim, uma história deve seguir uma trajetória de causa e efeito claro, por isso vemos a consequência de cada ação. Isto diz-nos que as coisas estão somando, o que nos permite antecipar ansiosamente o que pode acontecer a seguir.

Olá dopamina = Olá leitor!”
Fonte: http://writetodone.com/usebrain-science-to-hook-readers-and-reel-them-in/

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