Pensando Metaforicamente

 

Ilustração: Henn Kim  

Acho que todo escritor deveria se interessar por metáforas. A escrita nada mais é do que a imaginação pessoal explicada através das palavras de um autor.  Como passar adiante o modo como percebemos o mundo se não por metáforas? Como fazer o outro entender nossa história, e o sentido por trás dela, se não soubermos fazer uso desse recurso?

James Geary, aforista e escritor do livro O Mundo em uma Frase, fala em seu próximo trabalho sobre a vida secreta das metáforas, e como pensar metaforicamente impulsiona a invenção e a criatividade. Geary já foi escritor da Time Europa e hoje edita a Ode Magazine, publicação devotada  ao otimismo e às notícias otimistas.

O  texto é uma transcrição de uma palestra que pode ser vista no original, em inglês, no Youtube, link abaixo. (Tradução feita por Roberta Rocha. Obrigada, Roberta! <3)

Segue a transcrição (com as partes em negrito por minha conta)

A metáfora vive uma vida secreta ao nosso redor. Mencionamos aproximadamente seis metáforas por minuto. O pensamento metafórico é essencial em como nós entendemos a nós mesmos, aos outros, como nos comunicamos, aprendemos, descobrimos e inventamos. Mas a metáfora é uma forma de pensamento antes de ser uma forma de usar as palavras.

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Agora, para me ajudar a explicar isto, eu recorri a um de nossos maiores filósofos, o eterno rei dos metaforianos, um homem cujas contribuições para o campo são tão grandes que ele mesmo se tornou uma metáfora. É claro que eu estou me referindo a nenhum outro senão Elvis Presley. (Risos)
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Agora, “All Shook Up” (Tudo Agitado) é uma grande canção de amor. Também é um grande exemplo de como todas as vezes que lidamos com algo abstrato ideias, emoções, sentimentos, conceitos, pensamentos, inevitavelmente recorremos a metáforas. Em “All Shook Up” (Tudo Agitado), um toque não é um toque, mas um arrepio. Lábios não são lábios, mas vulcões. Ela não é ela, mas um botão-de-ouro. E amor não é amor, mas é ser agitado.
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Neste caso, Elvis está seguindo a definição clássica de metáfora de Aristóteles como sendo o processo de atribuir a uma coisa um nome que pertence a outra coisa. Esta é a matemática da metáfora. E, felizmente é muito simples. X igual a Y. (Risos) A fórmula funciona onde quer que a metáfora esteja presente.
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Elvis a utiliza, assim como Shakespeare na sua frase famosa de “Romeu e Julieta” Julieta é o sol. Agora, aqui, Shakespeare dá a uma coisa, Julieta, um nome que pertence a outra coisa, o sol. E quando damos a uma coisa um nome que pertence a outra coisa, damos a ela toda uma cadeia de analogias também. Nós misturamos e combinamos o que sabemos sobre a fonte da metáfora, neste caso, o sol, com aquilo que sabemos sobre o seu alvo, Julieta. A metáfora nos dá uma compreensão muito mais vívida de Julieta do que se Shakespeare houvesse descrito literalmente como ela é.
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Então, como fazemos e entendemos metáforas? Isto parece familiar. O primeiro passo é o reconhecimento de padrões. [ Nessa parte é bom que acompanhemos as imagens mostradas no vídeo: Olhe para esta imagem. O que você vê? Três Pac Men desobedientes e três parênteses pontiagudos estão realmente presentes. Contudo, o que vemos, são dois triângulos sobrepostos. Metáfora não é apenas a detecção de padrões; é a criação de padrões.

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Segundo passo, sinestesia conceitual. Sinestesia é a experiência de um estímulo em um dos orgãos sensoriais em outro orgão também, como audição colorida. Pessoas com audição colorida realmente veem cores quando ouvem sons de palavras ou letras. Nós todos temos habilidades sinestésicas. [Este é o teste Bouba/Kiki. O que vocês tem que fazer é identificar qual destas formas é chamada Bouba e qual é chamada Kiki.] (Risos)

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Se você é como 98 por cento das outras pessoas, você vai identificar a figura arredondada, em forma de ameba, como Bouba, e a afiada, espetada como Kiki. Vocês podem levantar as mãos rapidamente? Isto corresponde? Ok, acho que 99,9 cobririam isto. Por que fazemos isto? Por que achamos ou criamos instantaneamente um padrão entre a forma arredondada e o som arredondado de Bouba, e a forma pontiaguda e o som pontiagudo de Kiki.

Pausa para uma dica do Leitura no Divã:  O nome dos seu personagem deve atentar a esse truque. Lembro que uma vez, um leitor me disse que o nome da minha personagem, Ava Wolf, remetia à mulher forte que ela era. Ou seja, seu nome ajudou a caracterizar meu personagem, reforçando sua imagem de “forte”

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E muitas das metáforas que usamos todos os dias são sinestésicas. O silêncio é doce. Gravatas são barulhentas. Pessoas sexualmente atrativas são quentes. Pessoas que não são sexualmente atrativas nos deixam frios. A metáfora cria uma espécie de sinestesia conceitual na qual compreendemos um conceito no contexto de outro.
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O terceiro passo é a dissonância cognitiva. [Este é o teste Stroop. O que você precisa é identificar tão rapidamente quanto possível a cor da tinta em que estas palavras estão impressas. Vocês podem fazer o teste agora.] Se vocês forem como a maioria das pessoas, vão experimentar um momento de dissonância cognitiva em que o nome de uma cor é impresso em uma cor diferente. O teste mostra que não podemos ignorar o significado literal das palavras mesmo quando o significado literal nos dá a resposta errada.

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O teste Stroop também já foi feito com metáforas. Os participantes tinham que identificar o mais rapidamente possível as frases literalmente falsas. Eles demoraram mais tempo para rejeitar metáforas como falsas do que frases literalmente falsas. Por que? Porque também não podemos ignorar o significado metafórico das palavras.
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Umas das frases era, “Alguns trabalhos são prisões”. Agora, a não ser que você seja um guarda de prisão, a frase “Alguns trabalhos são prisões” é literalmente falsa. Infelizmente, ela é metaforicamente verdadeira. E a verdade metafórica interfere na nossa habilidade de identificá-la como literalmente falsa. A metáfora importa porque está a nossa volta todos os dias, o tempo todo. A metáfora importa porque cria expectativas.
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Preste atenção na próxima vez que ler as notícias financeiras. As metáforas dos agentes descrevem os movimentos de preço como a ação deliberada de uma coisa viva, como em, “A NASDAQ subiu mais alto”. As metáforas dos objetos descrevem os movimentos de preço como coisas não-vivas, como, “A Dow caiu como um tijolo”.
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Pesquisadores pediram a um grupo de pessoas para ler um apanhado de comentários sobre o mercado, e então prever a tendência de preços do dia seguinte. Aqueles expostos a metáfora dos agentes tinham expectativas mais altas de que a tendência de preços continuaria. E eles tinham estas expectativas porque as metáforas dos agentes implicam a ação deliberada de uma coisa viva perseguindo um objetivo. Se, por exemplo, preços de casas são rotineiramente descritos como subindo e subindo, mais alto e mais alto, pessoas podem assumir naturalmente que o aumento não tem fim. Elas podem se sentir confiantes, por exemplo, para pegar hipotecas que, na realidade, elas não podem pagar. É claro que este é um exemplo hipotético. Mas esta é a forma como as metáforas nos conduzem erroneamente.
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As metáforas também importam porque influenciam decisões por ativar analogias. Foi dito a um grupo de estudantes que um pequeno país democrático havia sido invadido e estava pedindo ajuda aos Estados Unidos. E eles tinham que tomar uma decisão. O que eles deveriam fazer? Intervir, apelar à ONU ou não fazer nada? A cada um deles foi dada uma das três descrições desta crise hipotética. Cada uma delas destinava ativar uma analogia histórica diferente: Segunda Guerra Mundial, Vietnam, e a terceira era historicamente neutra.
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Aqueles expostos ao cenário da II Guerra Mundial fizeram recomendações mais intervencionistas do que os outros. Assim como não podemos ignorar o significado literal das palavras, também não podemos ignorar as analogias ativadas pelas metáforas. A metáfora importa porque abre as portas para a descoberta. Todas as vezes que resolvemos um problema ou fazemos uma descoberta comparamos com o que sabemos e o que não sabemos. E a única forma de descobrirmos o que não sabemos é investigar as formas de como elas poderiam ser parecidas com o que já sabemos.
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Einstein descreveu seu metódo científico como um jogo combinatório. Ele conhecidamente usou experimentos de raciocínio, que são essencialmente analogias elaboradas, para chegar a algumas de suas maiores descobertas. Ao reunir o que sabemos e o que não sabemos através da analogia, O pensamento metafórico acende a faísca que inflama a descoberta.
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A metáfora é ubíqua, ainda que esteja escondida. Mas você só tem que olhar para as palavras ao seu redor para perceber isto. Ralph Waldo Emerson descreveu a linguagem como “poesia fóssil”. Mas antes de ser poesia fóssil a linguagem foi metáfora fóssil. E esses fósseis ainda respiram.
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Tome as três palavras mais famosas na filosofia ocidental: “Cogito ergo sum”. Elas são rotineiramente traduzidas como “Penso, logo existo”. Porém, existe uma tradução melhor. A palavra latina “cogito” é derivada do prefixo “co”, que significa “junto”, e o verbo “agitare”, que significa “agitar”. Então, o significado original de “cogito” é agitar junto. E a tradução adequada de “cogito ergo sum” é “Eu agito as coisas, então eu existo.” (Risos).
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As metáforas agitam as coisas, e nos dão de tudo, de Shakespeare a descobertas científicas, no processo. A mente é uma arena plástica de neve a mais bonita, mais interessante, e mais ela mesma, quando, como Elvis coloca, ela se agita toda. E a metáfora mantém a mente agitada, chacoalhando e rolando, mesmo depois que Elvis deixou o prédio. Muito obrigado. (Aplausos)

Clique aqui para o vídeo no Youtube!

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